O Self no Mundo Interno

Publicado a 15.10.2017

O  SELF NA HARMONIZAÇÂO DO MUNDO INTERNO

Quando se fala em mal estar psicológico, é frequente e intuitiva a associação à ideia de duvida, desorientação e conflito interno. Podem ser exemplo disso, a insatisfação causada pela hesitação e adiamento sucessivo de decisões ou ações que são importantes para nós ou noutro caso, a dificuldade que se tem em fazer escolhas entre elementos igualmente relevantes mas mutuamente exclusivos.

Implicitamente encontramos a presença de polaridades ou se quisermos, de vontades opostas que geram conflito interno ou que se anulam mutuamente, resultando em passividade e estagnação.

Quando olhamos mais de perto para estes cenários, podemos observar que na origem desta forma de estar, encontramos partes ou facetas distintas do nosso ser que são activadas por diferentes perspectivas e motivações, como é perceptível nas seguintes afirmações:

-        “ Uma parte de mim quer muito ir mas a outra não!”; 

-        “ Quando penso na hipótese de fazer um doutoramento, por um lado fico com muita vontade  mas por outro tenho medo....  algo me diz que não vou ser capaz !....”

-        “ Tenho uma faceta muito tolerante e atenciosa mas também quando me irrito levo tudo á minha frente ...”

Curiosamente, é possível relacionar narrativas sobre partes e diálogos internos e memórias de interações familiares com pessoas significativas da nossa história :

Por exemplo,

-        “ Eu queria muito ter uma mota mas o meu pai não me deixou!”; 

-        “ O meu irmão sempre teve mais autonomia do que eu ... deixavam-no sempre sair com os amigos sem restrições e a mim já não....ainda hoje receio fazer certas coisas sozinha!

-        “ A minha mãe parecia ser uma pessoa muito calma mas quando ela se zangava todos nós nos encolhíamos...  na escola, a minha professora primária também era assim!...   ”

Ao longo do nosso desenvolvimento, vamos guardando as nossas experiencias emocionais e internalizando as interações com outros significativos,  a partir das quais vamos construindo crenças sobre nós próprios e os outros , mapeando a nossa realidade interna.

Á medida que nos tornamos adultos, esta realidade interna pode ser percebida como um conjunto de elementos interdependentes ou um Sistema de Partes Internas que á semelhança de uma família funcional, se organiza em torno de uma entidade supostamente mais madura – o Self , que conduz o sistema.

Independentemente do que se saiba sobre o “Self “, ou se preferirmos o “Eu”, esta entidade que tende a ser percebida de forma unificada, surge nesta perspectiva, como o lider natural de  um sistema interno que em diferentes fases da vida pode estar mais ou menos organizado.

Após experiencias traumáticas, na presença de um Self frágil, algumas partes do sistema podem ficar vulneráveis e outras podem emergir em seu socorro.  Instaladas no papel de protetoras, estas partes  assumem o controlo do sistema interno e  fragilizam a liderança do Self, conduzindo o sistema para uma situação de disfuncionalidade psicológica.

Neste contexto, pode surgir  a auto-critica como proteção preventiva, cuja intenção é intervir em defesa das partes vulneráveis que carregam “fardos” de dor e negatividade ( medo, vergonha, raiva), evitando que se exponham a novo trauma. 

Outra forma de proteção pode surgir de uma parte que emerge para aliviar ou distrair o sujeito (com excessos de álcool, comida, sexo, trabalho, etc.) em resposta imediata  à chamada de atenção de partes exiladas em sofrimento, evitando que possam  invadir o sistema com  suas crenças e emoções negativas.

Em Terapia IFS, o Self,  enquanto agente de cura psicológica, precisa de ser reforçado nas suas qualidades de calma, conectividade, compreensão e compaixão (ente outras) para restabelecer o equilíbrio do sistema interno.

Através da metodologia da Terapia dos Sistemas Internos de Richard Schwartz(1995),  a pessoa cujo mundo interno está desorganizado ou mesmo caótico, pode encontrar orientação  do terapeuta para fortalecer a energia do Self, de forma a assumir a liderança perdida, construir relações de confiança com cada uma das suas partes e  reorganizar o seu sistema interno de forma segura e harmoniosa. 

Bibliografia: 

Schwartz, R.C.(2003)Terapia dos Sistemas Familiares Internos. Roca Ed