Psicoterapia e Brincar

Publicado a 03.10.2016

Brincar é um comportamento universal e que ocupa grande parte do tempo das crianças. Segundo Schaefer (1993), uma criança com 6 anos já passou mais de 15.000 horas da sua vida a brincar. Sendo esta uma atividade normal e quotidiana que todas as pessoas parecem saber identificar, nem sempre a sua definição é fácil, devido ao amplo leque de comportamentos e funções que nela se integram. Contudo, a maioria dos autores defende que este é um aspeto fundamental do desenvolvimento, sendo uma atividade voluntária, associada a uma motivação intrínseca. Landreth (2002) corrobora esta ideia, defendendo o brincar como a atividade central da infância.

Embora o brincar seja uma atividade que tem acompanhado as crianças ao longo dos tempos, esta nem sempre foi uma temática muito valorizada na área da psicologia e do desenvolvimento infantil. Só a partir do século XX é que o brincar começou a ser considerado fundamental ao desenvolvimento da criança tendo sido uma temática central em teorias desenvolvimentais, educacionais e terapêuticas.

Sendo uma atividade fundamental ao desenvolvimento da criança, o brincar apresenta também diversas potencialidades enquanto forma de intervenção e compreensão da criança. Sendo o brincar o meio de expressão da criança, a sua observação permite-nos aceder de forma direta ao seu mundo interno. Assim, da mesma forma que os adultos podem falar acerca das suas dificuldades em terapia, para as crianças o brincar deve ser usado como forma de expressão dos seus sentimentos e dificuldades.

Assim, a partir da década de 30 começam a surgir alguns autores que apontam para a importância do brincar enquanto um método terapêutico – ludoterapia. Lowenfeld introduz a “técnica do mundo miniatura” na psicoterapia com crianças, procurando assim uma estrutura para a ludoterapia. Virginia Axline (1973) dá também um grande impulso nesta área, com a publicação de Dibs: In Search of Self, que trouxe um grande reconhecimento à ludoterapia, demonstrando a potencialidade do brincar no tratamento das crianças.

Desde então, são cada vez mais os autores que dão enfoque ao impacto de intervenções psicológicas que utilizam o brincar como método terapêutico, sendo cada vez maior o número de profissionais que integra o brincar na sua prática clínica. Atualmente é possível identificar diversas correntes e formas de intervenção na ludoterapia: centrada na criança, psicanalítica, junguiana, cognitivo-comportamental, familiar, grupal, ecossistémica, narrativa, entre outras.

Em suma, o brincar é cada vez mais encarado como uma dimensão fundamental no desenvolvimento das crianças, sendo valorizadas as suas potencialidades tanto na área do tratamento como da avaliação das crianças. 

Bibliografia: 

Axline, V. (1973). DIBS in search of self. New York: Ballantine Books.

Burghardt, G. (2011). Defining and recognizing play. In A. Pellegrini (Ed.), The Oxford Handbook of the development of play (pp.9-18). Oxford: Oxford University Press

Gitlin-Weiner, K., Sandgrund, A., & Schaefer, C. (2000). Play Diagnosis and Assessment (2 ed.). New York: John Wiley & Sons, Inc.

Landreth, G. L. (2002). Play therapy : the art of the relationship (2 ed.). New York: Brunner-Routledge.

Schaefer, C. E. (1993). The Therapeutic powers of play. Northvale, N.J.: J. Aronson.

Webb, N. B. (2007). Play therapy with children in crisis : individual, group, and family treatment (3 ed.). New York: Guilford Press.