Os nossos mapas internos

Publicado a 27.05.2017

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Durante a infância, quando o nosso cérebro está processo de maturação, recebemos as primeiras informações/ instruções para lidar com o mundo que estamos a descobrir. Consequentemente é durante este período do desenvolvimento que as nossas competências de processamento cognitivo, emocional e de regulação comportamental se começam a desenvolver e estabelecer. Por exemplo, aprendemos a nomear objetos, percebemos para que servem, temos emoções e respostas fisiológicas relacionadas com a função que atribuímos aos objetos e agimos de acordo com aquilo que os objetos significam para as nossas necessidades no contexto em que estamos.

Assim, as nossas experiências são marcantes para as representações que construímos sobre nós, os outros e o que nos rodeia. A tendência é para irmos construindo e complementando mapas internos que facilitem a adaptação e desenvolvimento, podendo este processo ser melhor ou pior sucedido dependendo do contexto em questão. Estes mapas internos são fundamentais à nossa experiência no mundo, uma vez que são o nosso guia para o modo como nos relacionamos com os outros e connosco próprios, servindo de matriz orientadora para o que pensamos e julgamos sobre a nossa experiência, assim como para a forma como lidamos com emoções e tendências comportamentais decorrentes da nossa experiência interna ou externa.

Ainda que altamente condicionados pelas experiências precoces ou emocionalmente marcantes (e apesar dos mapas internos resultantes delas não terem sido elaborados de modo consciente ou voluntário), estes mapas são acessíveis e revisíveis ao longo da vida. Os mapas estão em processo de construção permanente, são reformulados pelas várias experiências que vamos tendo e pela disponibilidade que temos para os conhecer, compreender e rever.

No que diz respeito aos mapas interpessoais especificamente, estes representam as nossas bússolas para nos relacionarmos com os outros. Na elaboração destes mapas têm um papel fundamental as relações que estabelecemos com os nossos cuidadores, figuras de autoridade próximas e pessoas com quem fomos tendo relações com carga emocional intensa. É no contexto destas relações que formamos crenças sobre nós nas relações, por exemplo “o que eu sou para o outro, o que valho, mereço…” e sobre os outros na relação connosco, por exemplo, “o que o outro pensa de mim, o que sente por mim, o que me dá, me pede, satusfaz…” (estas crenças influenciam aquilo que esperamos de nós e dos outros, aquilo que pensamos, a forma como nos posicionamos). Também desenvolvemos padrões emocionais e de comportamento que tendem a repetir-se nas relações. E é importante notar, que sem nos darmos conta, há aspetos do nosso funcionamento podem ser percepcionados como partes de nós incoerentes entre si ou como um todo que nos parece coerente e é a “maneira de ser”.

Os nossos mapas interpessoais são tanto mais úteis quando nos permitem um bom desenvolvimento na relação com os outros, isto é: estar em segurança e ser seguros para o outro, vivenciar experiências que valorizamos e nos fazem sentido e proporcionar o mesmo, realizar/suprimir as nossas necessidades e proporcionar/contribuir para que o outro realize/suprima as suas, sentir e partilhar emoções agradáveis, tolerar e regular as emoções desagradáveis em nós e saber ou não apoiar o outro.

Tornam-se rígidos ou pouco úteis quando nos colocam em cenários emocionais de grande sofrimento, ou de conflito, isolamento, insatisfação. Aqui, faz sentido visitarmos os nossos mapas interpessoais e tentarmos compreender como os podemos organizar de forma mais produtiva e satisfatória, ao serviço de relações e experiências valorizadas.

Bibliografia: 

Dimaggio, G., Montano, A., Popolo. R., Salvatore, G. (2014). Terapia Metacognitiva Interpessoal nas Perturbações da Personalidade. Lisboa: Coisas de Ler.

Guedeney, A. & Guedeney, A. (2004). Vinculação: conceitos e aplicações. Lisboa: Climepsi Editores.