Rótulos, e o que resulta de tomar o todo pelas partes

Publicado a 04.12.2016

Há um conceito interessante em Psicologia da Educação cuja aplicação é útil a vários outros contextos. A ideia é: no processo educativo devemos evitar rotular, para não confundir a criança com os seus comportamentos…por outras palavras, isto traduz-se na prática seguinte: quando as crianças se portam mal devemos ter cuidado na linguagem que utilizamos para abordar o comportamento. Habitualmente dizemos: “és feio (porque bateste aos meninos)”, “não te quero aqui (porque bateste aos meninos)”, “olha assim não gosto de ti (porque bateste aos meninos)” , quando o que deveríamos dizer é: “bater aos outros meninos é feio”, “não quero que batas nos outros meninos”, “os outros meninos não gostam quando lhes bates” .

Parece simples não é?

E é. Mas nem sempre o que é simples é fácil de praticar, pois implica estar atento, tomar consciência e mudar hábitos.

O mesmo princípio pode também ter utilidade para  quando elogiamos: ao elogiar o comportamento, transmitindo o quanto este é adequado ou esperado, criamos a possibilidade de a criança saber o quanto apreciamos e esperamos aquele comportamento, mesmo que não o exiba permanentemente. Assim, devemos elogiar o processo independentemente do resultado, devemos elogiar os esforços para que estes sejam sinalizados pela criança como algo positivo e expectável e mereçam o seu investimento mesmo quando não são bem-sucedidos à primeira tentativa. Elogiar o comportamento permite que a criança não se iniba de voltar a exibir comportamentos desejados mesmo depois de exibir comportamentos indesejados.

Argumentos motivacionais para tentar mudar a nossa maneira de comunicar mesmo que não seja assim tão fácil?

Esta perspectiva pedagógica encontra suporte em vários pressupostos conceptuais. Um destes, é o de que existe um efeito chamado “efeito Pigmalião” através do qual, quando transmitimos expectativas positivas às crianças elas tendem a comportar-se de acordo com aquilo que acreditam que vemos nelas “tu outro dia estavas cheia de coragem…fizeste logo festinhas ao cão, ora experimenta lá desta vez também”. Este mesmo efeito observa-se em adultos e pode ser estendido a diferentes relações.

Outro pressuposto é o da polivocalidade, conceito que contempla que podemos dar lugar a várias partes de um “eu”, através da narrativa com que organizamos a experiência interna. Ao utilizar uma linguagem que não rotula, não vamos criar ou reforçar a ideia de que o todo é igual a uma das partes (por exemplo, não vamos dizer “és feio” porque a criança teve um comportamento “feio”). Devemos, sim,  transmitir a ideia de que a criança é um todo (com vários lados), maior do que as suas partes e, por isso, pode colocar o seu “eu” bem comportado ou o “eu” que gosta de agradar e corresponder a expectativas positivas ao serviço do comportamento adequado e no controlo do “eu” mal comportado.

O pressuposto mais recente é retirado dos desenvolvimentos da Psicologia Clínica. Nestas abordagens, existe a importante noção de que o “self é fluído” porque o “eu” e a percepção que deste temos não é permanente ou definitiva mas construída contextualmente e continuamente. Sendo a própria percepção susceptível de mudança o “eu” pode, com a experiência relacional, distanciar-se de algumas partes de si e estimular outras. Tudo isto, se assumir, que algumas das suas partes não são nem condicionam o todo. Enquanto que, com linguagem rotuladora, não se transmite o potencial de exploração das partes expectáveis nem se promove a capacidade de exercitar essas outras partes de si.

Provavelmente, este mindframe de tomar o todo pelas partes está presente em inúmeras áreas das nossas vidas, mais numas pessoas do que noutras. Provavelmente, por motivos evolutivos, processamos a informação com este enviesamento, para sermos mais rápidos a responder aos estímulos do ambiente – generalizamos para prever e responder.

Contudo, corremos este grande erro: inibir os sujeitos do seu potencial de mudança. E pior: acreditar que temos de afastar, combater, julgar os sujeitos. Em vez de afastar comportamentos, combater atitudes, julgar práticas tóxicas e ajudar os sujeitos a experimentar melhores partes de si.

 

Bibliografia: 

 

Fachada, O. (2010). Psicologia das Relações Interpessoais. Lisboa: Sílabo.

Fletcher, L. & Hayes, S. C. (2005). Relational frame theory, acceptance and commitment therapy, and a functional analytic definition of mindfulness. Journal of rational – emotive and cognitive behavioural therapy,23, 315-336.

Wong, Y. J. (2006). Strength-centered therapy: a social constructionist, virtues-based psychotherapy. Psychotherapy: Theory, Research, Practice, Training. Washington, D.C.: American Psychological Association43 (2), 133–146.