Indicar um Psicoterapeuta

Publicado a 12.04.2013

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Quando nos pedem a referência de um psicoterapeuta para acompanhar alguém que atravessa alguma crise pessoal delicada,  podemos estar numa posição não apenas de responsabilidade mas também de alguma complexidade. Não que conheçamos poucos colegas recomendáveis, ou tenhamos pouca confiança na eficácia das psicoterapias.  Felizmente as psicoterapias e as ciencias que a fundamentam - como a psicologia - continuaram nas últimas décadas a demonstrar uma grande vitalidade e evolução científica e profissional. Conhecemos mais colegas com um percurso formativo e clínico exigente, bem integrados em comunidades científicas e profissionais que ajudam na regulação e desenvolvimento das suas capacidades clínicas, e que nos assseguram competências especializadas para uma intervenção segura e útil.  Por fim, a especialização e o treino em psicoterapia está a tornar-se para os psicólogos portugueses, senão mandatório,  exigível. 

Contudo, em face da complexidade e exigência da nossa area de intervenção, sentimos necessidade de saber mais sobre quem pede ajuda, com que queixas ou objectivos,  de que psicoterapeuta. Necessitamos dedicar algum tempo de reflexão ao tema, num esforço para aumentar  a probabilidade de um encontro bem sucedido.

A  prática clínica ensina-nos que o território da consulta psicológica e das psicoterapias é um território tão vasto quanto o da experiência humana. Abrange problemas tão diversos quanto a complexidade dos percursos de vida, ou dos problemas de saúde e doença associados. Na lista das queixas que leva diferentes populações, em diferentes contextos de ajuda (cuidados de saude primários, hospitalares, comunitários, etc.) à consulta de psicologia, psicoterapia e psiquiatria, estão experiências de trauma complexo - familiar, relacional, social -, problemas de personalidade, de regulação emocional, de adaptação a novas circunstâncias ou etapas do desenvolvimento e do ciclo de vida.

A lista de queixas e problemas pode ficar interminável. A título de exemplo, a ultima edição do manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais ou DSM classificava mais de 300 perturbações. E como sabemos que o território costuma ser mais vasto e complexo que qualquer mapa, esta lista tende a aumentar se alargamos o âmbito da ajuda psicoterapeutica para além do que um manual de diagnóstico já consegue mapear e classificar.

Perante esta vastidão e correspondente complexidade, podemos certamente duvidar que algum psicólogo(a) ou psicoterapeuta, independentemente do seu treino e experiência, esteja preparado(a) para ajudar todo o tipo de população ou problemática, nos diferentes níveis etários.  A consulta de psicologia e psicoterapia é uma actividade complexa e delicada, que mexe com o que de mais frágil e precioso há em cada de nós: a experiência íntima e subjectiva de crescimento na vulnerabilidade e na adversidade, no percurso único de cada. Porque quase sempre complexa e nem sempre bem sucedida ou com resultados evidentes, a prática clínica requer da parte dos que a praticam não apenas especialização, experiência, e responsabilidade deontológica. Requer também humildade, disponibilidade, dedicação e abertura para o outro. Requer partilha clínica e atualização científica constantes.   

Tradicionalmente os psis especializavam-se e trabalhavam em apenas uma área (escolar-educacional-vocacional, trabalho-organizacional, clínica-saúde), em um ou dois grupos etários - como crianças e adolescentes, ou adolescentes e adultos, ou adultos e idosos. Ou por áreas de intervenção, como a família, a conjugalidade, ou a sexualidade. Numa área de intervenção tão vasta e delicada como esta, poderemos tolerar uma abertura "globalizadora", em que todos podem entrar em qualquer área e fazer de tudo um pouco? E se o fizermos, que benefícios e prejuízos daí resultarão, quer para os que recorrem aos nossos serviços, quer para o prestígio e a imagem social e científica da profissão?

A escolha de um(a) psicólogo para fins clínicos deveria pois ter em conta bem mais do que a proximidade geográfica. Bem mais do que a referência bem intencionada de um amigo, um familiar ou um vizinho. Bem mais do que uma licenciatura em psicologia ou medicina. Bem mais que um percurso académico. A escolha de um(a)psicólogo ou de um(a)psicoterapeuta deveria ter em conta percursos e experiências clínicas,  pós-graduações e especializações devidamente credenciadas.