Acompanhar uma criança

Publicado a 10.04.2016

 

O trabalho psicoterapêutico com crianças é muito mais complexo do que somente estar em gabinete com uma criança. Todas as crianças têm uma família (mães, pais, irmãos, avós, tios, primos). Presente ou ausente, real ou imaginária, que nunca se distancia do espaço psicoterapêutico, ainda que fisicamente possa nunca comparecer. Por isso estar com crianças é sempre estar com a sua família.

Todas as crianças têm amigos. Os da escola, do ballet, do karaté, dos escuteiros, da explicação, filhos dos amigos da família. Daqueles que conversam muito com eles e pedem para irem dormir lá a casa, ou do tipo que nunca realmente existiu, que nunca disse olá no intervalo, que nunca convidou para sentar à mesa no almoço. Por isso estar com crianças é sempre estar com os seus amigos. Todas as crianças têm uma escola, com professores e auxiliares de ação educativa. A qual frequentam, onde se sentem acolhidos e na qual investem, ou uma onde nunca aparecem, onde são sempre culpados e nunca fazem nada bem. Por isso estar com crianças é sempre estar com a sua escola.

Todas as crianças são uma pessoa. Única, irrepetível, com traços semelhantes aos familiares ou muito diferentes dos deles, mas sempre com um mundo interno riquíssimo e em constante desenvolvimento. Por isso estar com crianças é também estar só com elas. O trabalho psicoterapêutico com crianças é muito mais complexo do que estar em gabinete com uma criança. É também isso, mas é ainda conjugar relações familiares, escolares e com os pares, que sofrem mutações diárias e exigem readaptação dos equilíbrios. É processo muito desafiante, pois estão muitas pessoas envolvidas.

Se é pai, professor ou amigo de uma criança, tenha este pressuposto em mente se for solicitada ou se pretender oferecer a sua colaboração num processo terapêutico - é cada um dos grãos de areia que forma um deserto.

Este texto foi baseado na teoria de Bronfenbrenner, que contextualiza cada ser humano em desenvolvimento em distintos sistemas ao longo do tempo, designadamente o micro, o meso, exo, o macro e o cronossistema. Tal é representativo de uma abordagem interacionista da criança com os outros elementos que constituem a casa ou a escola; entre esses ambientes; com ambiente onde não atua diretamente mas que podem ser relevantes, como o contexto de trabalho dos pais ou os amigos destes; as políticas e caraterísticas culturais dos ambientes em que a criança se insere; e a inevitável progressão do tempo.

Pretendemos realçar o papel que um psicólogo clínico ou psicoterapeuta pode desempenhar com uma criança e os seus sistemas, e a sua consequente alteração de estatuto para mais um elemento da vida da criança – correspondente à segunda cibernética da visão sistémica da Terapia Familiar, em que o terapeuta não é só alguém que assiste (a)o sistema da família, mas é também ele parte desse mesmo sistema.

 

 

Bibliografia: 

Bronfenbrenner, U. (1977). Toward an experimental ecology of human development. American Psychologist, 32, 513-531.