Luto na Criança

Publicado a 16.09.2016

Um processo de luto é sempre algo muito doloroso e complexo. Ainda no outro dia uma paciente adulta me perguntava “Oiço falar muito disto do luto...Como é que sabemos que está feito?”. De facto, a resposta é tudo menos simples.

As teorias mais recentes referem que um processo de luto saudável implica uma transformação na relação mantida com alguém que morre, não porque tenhamos de nos despedir permanentemente dela, mas porque essa pessoa já não está fisicamente connosco e não corresponde na interação como antes.

Quando se trata do processo de luto numa criança, a situação torna-se ainda mais desafiante, na medida em que diferentes fases do desenvolvimento infantil permitem distintas noções e apreensões dos conceitos, ou seja, uma criança de três anos, não tem o mesmo entendimento da morte do que uma de nove. Compreender a morte, é compreender a vida, e perceber que todos os seres vivos que nascem acabam por morrer, num momento que nem sempre pode ser antecipado e anunciado mas que leva a uma ausência física que é invariavelmente permanente. Podemos, no entanto, guardar connosco símbolos de quem gostamos, fazer uma cerimónia ou ritual de despedida do corpo, e continuar a relacionarmo-nos com essa pessoa, contudo de uma forma diferente.

Habitualmente as crianças até aos quatro/cinco anos não têm muita noção das consequências da morte, enquanto algo constante e irreversível, e portanto costumam somente sintonizar-se com a expressão emocional que os adultos em sua volta demonstram. Conforme crescem, entre os cinco e os nove anos, espera-se que as crianças comecem a percecionar a morte como o “fim” de algo, manifestando então muitas questões sobre o que acontece ao corpo. Após esta idade, e expectavelmente até aos doze anos, as crianças ou pré-adolescentes aceitam a morte como uma consequência natural da vida, já de uma forma mais plena que compreende todas as suas facetas.

No processo de luto infantil é muito relevante o significado atribuído pelos adultos à morte, e a forma de recordar e homenagear a vida de quem se perdeu. Tal significa que cada família tem as suas crenças e forma de expressar a dor, que deverão ser partilhadas com a criança, de modo adequado e regulado. Se a explicação sobre a vida e a morte for tão simples e clara quanto possível, respondendo às dúvidas da criança, e enquadrando-a no que é a “verdade” da família, não são de antecipar dificuldades acrescidas/indicadores de risco no processo de luto. Será sempre algo dinâmico, reelaborado ao longo do desenvolvimento da criança, adquirindo novos significados, e muitas vezes acompanhado de dor. Também se espera que gradualmente a serenidade ganhe terreno, conforme a situação de sofrimento se organizar em torno do crescimento emocional que todas as experiências de vida nos proporcionam.