Sobreviver: crescimento pós-traumático

Publicado a 21.06.2016

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Não, não se trata da discussão da vida após a morte, mas quase. Será viável (re)encontrar a vida depois de termos sido privados dela, ou da sua possibilidade? Será possível ter uma vida melhor na sequência de uma situação traumática?

Na verdade, existem mais casos com consequências positivas resultantes de situações traumáticas, do que perturbações que se desenvolvem de forma subsequente. Ou seja, são menos as situações de perturbação de stresse pós-traumático identificadas do que as de crescimento pós-traumático, só que estas últimas não são tão divulgadas, nem de forma tão mediática. Existe então a real possibilidade de usufruirmos de uma vida com parâmetros de maior qualidade a vários níveis. Mas o mero vislumbre dessa hipótese parece aterradora: como aceitar que de algo terrível vem algo bom? Parece que os ditados populares são mesmo sábios, “quando se fecha uma porta, abre-se uma janela”, “depois da tempestade vem a bonança”, são dois exemplos que como desde tempos idos a cultura coletiva integra esta noção, que ainda oferece resistência a muitos indivíduos. Estudos têm confirmado que algo mau parece persistir na nossa vida de modo mais consistente do que as nossas boas memórias, mas isso não impede que seja efetivamente real o conceito de crescimento pós-traumático.

Quando depois de um episódio profundamente perturbador, vivido com demasiada intensidade emocional, em que experienciamos uma incapacidade nossa para fazer face a uma situação, sentiremos certamente muito sofrimento, mas podemos a par deste conseguir obter consequências positivas, crescer e aprender sobre nós próprios e a nossa forma de viver. Tal pode deixar-nos mais disponíveis para apreciar melhor o facto de estarmos vivos, usufruirmos de novas possibilidades, sentirmo-nos mais fortes em termos pessoais, relacionarmo-nos mais com os outros, ou até mudarmos o nosso entendimento espiritual do mundo.

Se refletirmos sobre o sucedido, encontrarmos significado na nossa experiência negativa, partilharmos o que nos parecer importante com os outros, e conseguirmos aceitar as emoções que nos surgem para podermos prosseguir, poderá ser possível um crescimento após o trauma. Neste sentido, é imprescindível aceitar que a nossa vida mudou, que podemos não ser mais exatamente os mesmos e que é importante dar espaço às nossas novas necessidades.

Muitas vezes, um processo psicoterapêutico facilita, ou pode ser mediador, desta forma de desenvolvimento pessoal, na medida em que constitui um ambiente seguro em que o indivíduo acede ao significado interno e subjetivo da experiência traumática, e se entrega à aceitação e mudança na co-construção relacional com o terapeuta.

 

 

Bibliografia: 

Fosha, D. (2002). Trauma reveals the roots of resilience. Constructivism in the Human Sciences, 6(1 & 2), 7-15.

Kearney, L. (2012). Posttraumatic growth: From surviving to thriving. Advanced Project Artifact – online presentation.