Pais, filhos e emoções

Publicado a 11.02.2013

As emoções são extremamente importantes para o ser humano. Elas ajudam-nos a seleccionar a informação relevante e decisiva num dado contexto ou acontecimento, a identificar as nossas necessidades e o que fazer para as satisfazer. As emoções são o motivador primário dos comportamentos e da adaptação dos seres humanos. Claro, é preciso inteligência emocional. Sem esta inteligência as emoções podem revelar-­se disfuncionais. Como podemos então ajudar as crianças a desenvolver inteligência emocional?

Empatia é a peça chave. Ou seja, querer realmente entender o que as crianças sentem, e validar esses sentimentos e emoções, espelhando-­os como aceitáveis e compreensíveis. É da maior importância que as crianças cresçam num clima em que se expressem abertamente emoções; no qual emoções "negativas“ não são um problema e o fim do mundo. Estaríamos a ensinar-­lhes que esses estados emocionais são inadequados ou errados, o que poderá levar a outros problemas. Por exemplo, que a criança acredite que ela própria é o problema. Importante assim que escutemos as crianças, de coração aberto para as suas expressões emocionais, mesmo as mais difíceis.  Que procuremos colocar-­nos no seu lugar, na sua experiência,  e contemplemos o mundo com os seus olhos!

Para podermos sentir o que as crianças sentem, temos em primeiro lugar de tomar consciência das emoções em nós mesmos, e depois nas crianças. Termos consciência significa simplesmente reconhecer que estamos a experimentar emoções (a sentir alguma coisa), identificar os nossos sentimentos e permanecer abertos para presença de emoções nos outros. Não esqueçamos que as crianças se deparam com a vida de uma perspectiva bem mais fresca, menos experiente e mais vulnerável.

Sentimentos e emoções são uma oportunidade para a intimidade. Não temos de percepcionar a raiva da criança como um desafio à nossa autoridade. Não temos de olhar para o medo da criança como um sinal da nossa incompetência. E a sua tristeza não tem de ser mais-­um-problema-­que-­eu-­tenho-­de-­resolver. Se a crise se prende com uma descida de nota na matemática, ou uma deslealdade de um amigo, acontecimentos deste género são uma oportunidade excelente para empatizar com a criança, de construir e alargar confiança e intimidade, e de lhes ensinar a lidar com essas emoções.

Sentimentos negativos abrandam ou até desaparecem quando as crianças falam sobre os mesmos, os nomeiam e se sentem compreendidas. Ao reconhecer e aceitar os estados emocionais na criança, ajudamo-­la a desenvolver competências de auto-acalmia e regulação – competências que a irão ajudar uma vida inteira.

Ouvintes empáticos procuram sinais de emoção na criança. Ouvintes empáticos reflectem verbalmente o que vêem, de um modo não crítico, calmo, e ajudam a criança a identificaer e nomear as suas emoções. Mas sobretudo utilizam o coração para sentir o que a crianças está a sentir naquele momento. Para nos sintonizarmos com os sentimentos da criança, precisamos de prestar atenção à linguagem corporal, expressões faciais e gestos. Entendamos também que as crianças compreendem a nossa linguagem corporal – elas sentem se queremos despachar o assunto rapidamente, se estamos irritados ou não temos vontade, mesmo que verbalizando o contrário. Portanto, se procuramos uma conversa calma e atenciosa, procuremos uma posição corporal que comunique isso. Sentemo-nos ao lado ou à frente da  criança, respiremos fundo, relaxemos e concentremo-­nos. A nossa atenção dará a entender à criança que levamos as suas preocupações a sério e que estamos dispostos a investir um pouco de tempo no assunto. Enquanto a criança revela os seus sentimentos, espelhemos o que ouvimos. Isso dará segurança à criança de que a estamos a ouvir atentamente, e de que sentimos as suas emoções como adequadas e válidas.

Pode ser muito útil sugerir estados emocionais, como p.ex. triste, com medo, zangado/a, tenso/a ou preocupado/a, que ajudam a criança a transformar sensações e experiências aparentemente perurbadoras e difíceis de digerir, em algo definido, delimitado e “quotidiano“, identificável, isto é, em algo normal. Raiva, tristeza e medo transformam-­se em experiências com que se pode lidar.

Nomear emoções caminha lado a lado com a empatia. Ao ver a criança lavada em lágrimas e lhe dizemos, p.ex., “Estás triste, não estás?“, transmitimo-­lhe não apenas compreensão, mas também lhe oferecemos uma designação que identifica o que ela está a sentir.

Trabalhos científicos demonstram que identificar ou designar emoções tem um efeito calmante no sistema nervoso, e que crianças que aprendem a acalmar-­se se concentram melhor, desenvolvem ligações melhores com outros, têm mais sucesso escolar, são mais saudáveis.

Embora possa ser fácil entender estas ideias, pô‐las em prática pode ser bem mais difícil.  Aos pais exige-se serem capazes de se acalmar e se livrar de muitas ansiedades que poderão impedi-­los de sentir empatia – por exemplo quererem proteger a criança de rejeições que ela sofre, terem preocupações de que a criança possa não vir a “ser alguém”, expectativas de como se quer que a criança seja ou até preocupações como outros poderão estar a julgá-­los enquanto pai ou mãe.

Encontrar este equilibrio e disponibilidade implica paciência e coragem, implica parar e oferecer empatia à criança. Ela compensar-nos-á. 

 

Bibliografia: 

Gottman, J. (1997). Raising an emotionally intelligence child. New York, NY: Simon & Schuster paperbacks.

Greenberg, L. S. (2002). Emotions in parenting. In L. S. Greenberg (Ed.), Emotion-Focused Therapy: coaching clients to work through their feelings (pp. 279-299). Washington DC: American Psychological Association.