Vergonha e inibição social

Publicado a 11.02.2013

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A vergonha habita as histórias de muitas pessoas que recorrem à psicoterapia. Esta vergonha é passível de ser identificada e regulada? E qual o seu papel no trabalho terapêutico? É a estas e a outras questões que se pretende responder, na expectativa de ajudar e esclarecer os que experimentam de forma demasiado frequente e intensa a vergonha nas suas vivências.

A experiência da vergonha é normal e frequente nos humanos. Contudo, pode ser muito difícil identificar e aceitar esta emoção, o que impede, tantas vezes, a sua expressão. Talvez sejam as experiências mais caricatas as que nos assaltam a memória quando pensamos em vergonha. Quem é que não se recorda de algumas situações numa mesa de café em que se trocam risos acerca de episódios embaraçosos que despoletaram muita vergonha? Parece fácil abordar este tema numa banal conversa do quotidiano, no entanto a vergonha pode organizar-se como experiência muito mais dominante,  complexa e dolorosa do que nos cenários acima descritos. O sentimento de vergonha intenso apresentado pelas pessoas que procuram a psicoterapia associa-se à dor e a dificuldades de adaptação funcional à vida em sociedade. Mas do que falamos afinal quando referimos a vergonha?

Este conceito foi, durante algum tempo, negligenciado, parecendo existir inibição de falar sobre a própria vergonha, o que se traduziu na inexistência de uma linguagem científica capaz de descrever esta experiência. Entretanto, a vergonha tem sido alvo de interesse e estudo por parte de diversos autores, de que resultaram diferentes definições e formas de a concetualizar.

Assim, a vergonha pode ser definida como uma emoção negativa associada a um forte sentimento de diminuição e desvalorização pessoal. Para Gilbert (2000)* a vergonha é uma experiência interna e, simultaneamente, uma experiência social, na qual o indivíduo se perceciona como um agente social não atrativo. Esta emoção parece relacionar-se com a auto-avaliação global que o indivíduo faz como sendo desajeitado, diferente, inadequado, inferior, fraco, repugnante ou mau, sem qualidades ou competências que sejam valorizadas aos olhos dos outros . Esta associação tem que ver com o sentimento do indivíduo de que está no mundo como alguém que é indesejado e não gosta de ser como é, e a vergonha constituindo-se como uma resposta involuntária à tomada de consciência da perda de estatuto e desvalorização pessoal. A vergonha externa refere-se ao que sentimos quando, em determinada situação, pensamos ou sentimos que os outros nos estão a julgar, criticar, desvalorizar ou a ver-nos como inferiores, inaptos, defeituosos, fracos ou repugnantes. Assim, estes estados surgem da forma como percebemos que os outros nos sentem ou pensam.No mundo social, a vergonha manifesta-se através de crenças acerca da forma como os outros percecionam o indivíduo, quer no mundo interno, através da forma como o indivíduo se vê a ele próprio quer, simultaneamente, ao nível destes dois mundos - quando o indivíduo se perceciona como consequência daquilo que acredita que os outros pensam acerca de si.

As problemáticas que emergem na psicoterapia refletem também estes dois tipos de vergonha: a forma como o paciente se julga e se sente em relação a si, e a forma como ele perceciona que é avaliado pelos outros. Por exemplo, ter a perceção de que não se é socialmente atraente pode contribuir para que não consiga atenção positiva por parte dos outros. Do mesmo modo, o facto de perceber que não consegue despoletar atenção positiva nos outros, uma vez que se sente desvalorizado socialmente e rejeitado, pode contribuir para um ciclo de auto-críticas que podem explicar o perpetuar de dificuldades interpessoais e a manutenção de problemáticas.

É no contexto de exploração de experiências de vergonha que a identificação dos seus danos e impacto para o paciente se torna possível, permitindo, assim, o acesso a experiências traumáticas que podem ser trabalhadas em terapia. A intervenção pode passar, muitas vezes, por incrementar a capacidade de aceder, utilizar, regular e atribuir sentido às emoções para fomentar uma utilização mais adaptativa das mesmas.

O acesso a estas experiências pode ser facilitado se pensarmos na importância de  nos sentirmos valorizados e queridos pelos outros na nossa infãncia. E de como a vergonha é uma resposta afetiva defensiva do nosso cérebro à ameaça de não estarmos a despertar afeto positivo na mente dos outros. Desta forma um espaço terapêutico não crítico, mas apreciativo, seguro e aceitante, será determinante para a pessoa que manifesta incapacidade de tolerar avaliações negativas vindas de si própria ou dos outros.

 

Bibliografia: 

Gilbert, P. (2000). The Relationship of Shame, Social Anxiety and Depression: The Role of the Evaluation of Social Rank. Clinical Psychology and Psychotherapy, 7, 174-189. John Wiley & Sons, Ltd. 

Gilbert, P. & Milles, J. N. (2000). Evolution, genes, development and psychopathology. Clinical Psychology and Psychotherapy, 7, 246-255.