Emoções na vida e em terapia

Publicado a 18.08.2016

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As emoções são por natureza adaptativas e sem elas certamente não poderíamos viver vidas satisfatórias. Temo-las porque são de facto cruciais para a nossa sobrevivência. Ao longo de milhões de anos de evolução humana foram-se desenvolvendo e até complexificando vários tipos de emoções importantes que nos permitem processar as situações em que nos encontramos, identificar nelas o que é significativo para nós e produzir ações apropriadas à satisfação das nossas necessidades e à manutenção ou reposição do nosso bem-estar.

As emoções permitem sinalizar aos outros e a nós mesmos o nosso estado atual, o estado das nossas relações com o outro e com o nosso ambiente, bem como o estado de concretização ou frustração das nossas necessidades e metas. Uma vez que contêm em si informação sobre as nossas necessidades e desejos, organizam-nos e imprimem direção e sentido às nossas ações. A tristeza, por exemplo, reporta-nos a perda ou separação de algo, de uma conexão, de uma expetativa, predispondo-nos, por um lado à procura de apoio e conforto pelos outros e também ao fechamento em nós para aceitação e recuperação da perda. A zanga alerta-nos para a frustração de metas ou desejos ou violação de limites pessoais, o que por sua vez impele-nos à proteção, à imposição de limites e auto-defesa assertiva. O amor, o carinho e o cuidado dizem-nos que estamos em presença de algo de grande valor para nós, incitando-nos assim ao contacto, ao fortalecimento dos laços com esse algo e expressão de estima e afeto. A vergonha, por sua vez, informa-nos de que estamos demasiados expostos, que transgredimos determinados valores, padrões ou normas que não serão aceites pelo(s) outro(s). Prontifica-nos assim à retirada, à vontade de nos escondermos ou até desaparecer para impedir a sobre-exposição das nossas falhas, inadequações ou imperfeições e evitar a rejeição, julgamento ou exclusão. O medo alerta-nos para a iminência de um perigo, predispondo-nos à vigilância atenta ao ambiente, à fuga, à luta ou até imobilização perante a ameaça. A alegria, essa, diz-nos que uma necessidade foi satisfeita ou um objetivo foi alcançado. Sem compaixão não cuidaríamos dos outros, sem medo não nos protegeríamos, sem curiosidade, interesse ou excitação não atenderíamos ou exploraríamos novos estímulos. As emoções funcionam assim como uma espécie de bússola que não só na vida quotidiana, mas também em terapia, permitem-nos direcionar e atender àquilo que é nuclear para o paciente e para o que é necessário ser mobilizado para a resolução de problemas e obtenção do seu bem-estar.

As dificuldades emocionais, fontes de mal-estar ou inadaptação, podem resultar de condições como a incapacidade de acedermos às emoções e de tomarmos consciência das mesmas - o que estou a sentir? Se não tivermos acesso às nossas emoções (como quando as evitamos, quando não as apropriamos ou não permitimos ser tocados e transformados por elas) perdemos o acesso à informação valiosa nelas inscritas sobre que necessidades e valores estão a operar naquele momento, naquela situação. A capacidade de fazer escolhas é então empobrecida, a nossa ação é incongruente e perde foco. É, deste modo, de grande importância em terapia, a promoção de uma maior tomada de consciência emocional por parte do paciente.

As dificuldades emocionais e inadaptações que destas emergem podem também resultar de problemas na regulação emocional, nomeadamente, na sintonização da sua intensidade e duração. Quer sejam elevadas a um ponto tão intenso que se tornam avassaladoras ou a um nível tão baixo, quase que a uma espécie de congelamento ou alienamento, ficamos, em ambos os casos, como que bloqueados sem acesso à informação adaptativa que nos capacitaria a um coping mais eficaz. Também nestas situações a terapia procura enaltecer as capacidades do paciente para modular e regular as suas respostas emocionais, habilitando-o para a sua aproximação, aceitação, tolerância e apaziguamento, de modo a permitir a reflexão e o necessário acesso ao significado da sua experiência emocional.

Processos menos funcionas de construção de significado podem também estar na origem das disfunções emocionais. Sabemos que a emoção emerge numa determinada situação não apenas como resultado da apreciação, por si só, da situação na medida da sua relevância para as nossas necessidades, metas ou preocupações, mas também da ativação de estruturas ou esquemas emocionais formados a partir das nossas experiências e armazenados em memória. Através da ativação destes esquemas, são produzidas respostas emocionais automáticas (ou automatizadas pela aprendizagem) e adaptativas às situações (como por exemplo, sentir medo perante um ataque). No entanto, quando estas respostas generalizam-se e deixam de estar ajustadas ou em harmonia com as situações com que nos deparamos no presente, perdem a sua funcionalidade ou capacidade de promover adaptação e necessitam, como tal, ser transformadas. Em terapia procuramos então evocar estas estruturas e abri-las a novas experiências emocionais mais adaptativas, capazes de as transformar. 

Bibliografia: 

Greenberg, L. S., & Paivio, S. C. (1997). Working with emotions in psychotherapy. New York, NY, US: Guilford Press;

Greenberg, L. S. (2015). Emotion-focused therapy: Coaching clients to work through their feelings (2nd ed.). Washington, DC, US: American Psychological Association.