Delírium ou Ideia Delirante?

Publicado a 24.09.2013

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Sendo a identificação das situações psíquicas/psicológicas anómalas, preponderante para a reversibilidade das mesmas, há distinções que importa saber realizar para melhor encaminhar. Muitas vezes no senso comum afirma-se que alguém “está a delirar” ou “está a ter um delírio” num enquadramento em que realmente o que se quer referir é que a pessoa em causa está a manifestar algumas ideias que entram em conflito com a realidade, ou seja, que têm um quê de irreal e que, na generalidade das vezes está a interferir negativamente com a sua vida ou com os relacionamentos que mantém com os outros.

Nestes casos, não se trata de um quadro de delírio enquanto doença mental ou do foro psiquiátrico: trata-se de ideias delirantes ou ilusões que a pessoa alimenta.

De uma forma sintética, podemos definir ideias delirantes ou ilusões como sendo uma crença falsa firmemente mantida, que em muitos casos interfere com o funcionamento do indivíduo.

Especialistas estimam que muitas pessoas têm regularmente pensamentos ou ideias de natureza ilusória, sendo que em 10% destas, as ideias não interferem no seu quotidiano. Já em 20 a 30% dos casos, existem pensamentos paranóides, sendo necessária uma intervenção clínica psicoterapêutica/psiquiátrica. As ideias delirantes são especialmente prevalentes em pessoas com diagnósticos de distúrbios psicóticos ou esquizofrenia.

Estas ideias delirantes têm a função de ser uma tentativa de dar sentido aos eventos. Tudo começa com um evento de vida marcante e destabilizador que colide com a sua forma de ver o mundo e à qual existe a necessidade de atribuir um significado rapidamente. Geram-se emoções intensas e o exacerbamento de fragilidades emocionais que vão influenciar as crenças sobre o self, os outros e o mundo. Racionalmente a pessoa tenta encontrar sentidos, chegar a conclusões, fazer atribuições causais e julgamentos que, ao serem precipitados, vão fomentar o nascimento e a fundação das crenças ilusórias. A partir daqui, todo o seu mundo interno e externo começa a ser interpretado à luz do seu “mundo mudado”, destas ideias erróneas, procurando encontrar em tudo mais uma confirmação da sua crença, o que a vai consolidando e faz com que seja muito difícil modificá-la. Ilusões são, então, explicações não usuais para eventos internos, podendo incluir alucinações, anomalias percetuais, sentimentos de valor exacerbado e sentimentos de despersonalização.

Ao contrário das ideias delirantes (que, no fundo, podem configurar um sintoma de uma perturbação, mas não são um distúrbio por si só), o delírio configura um quadro de distúrbio mental, muitas vezes designado também por estado confusional. O delírio pode-se definir como um distúrbio cognitivo com um início severo e rapidamente progressivo em que o indivíduo apresenta uma perturbação da consciência com uma reduzida capacidade de focar e manter a atenção, pensamentos desorganizados, com uma diminuição da percepção clara do meio envolvente, alterações na cognição como desorientação espacio-temporal, modificações na linguagem e défices na memória, com a presença de sintomas neuropsiquiátricos (alucinações, ilusões, mudanças repentinas de humor). Este quadro sintomático é flutuante ao longo do dia. O delírio tem uma causa neurológica: acontece quando surge uma interrupção abrupta do funcionamento cognitivo devido a questões metabólicas, tóxicas e intracranianas, desencadeadas normalmente por intoxicação ou abstinência de substâncias externas (drogas, medicação), doenças que afectam a cognição (metabólicas, infecções, falha de órgão), doença cerebral primária (tumores, trauma, epilepsia, avc). Este quadro surge maioritariamente em situações de internamento hospitalar ou de institucionalização, e em especial nas pessoas de mais idade.

Quando não correctamente diagnosticado e tratado desde o início, pode evoluir para um quadro de perda total da noção de realidade, completa desorientação, com incoerência e alucinações constantes, com graves flutuações do nível de consciência e a total incapacidade de suster a atenção. Os sintomas comportamentais são psicóticos e o paciente pode entrar em estado de estupor. Estudos comprovam que o prognóstico a longo prazo não é animador: 35% morre no primeiro ano devido ao seu estado confusional.

É importante estar alerta e consciencializar para as diferenças entre as ideias delirantes e o delírio, já que identificá-los permite sugerir encaminhamentos terapêuticos/clínicos específicos que poderão fazer realmente a diferença na vida dos pacientes. Em especial, no caso do delírio, a prevenção secundária e o tratamento inicial são decisivos para a reversibilidade do quadro, para além das implicações e dos custos que podem ser evitados a nível do próprio sistema de saúde, e na qualidade de vida do paciente de todos os que os rodeiam.

 

 

Bibliografia: 

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·       Spar, J.E., La Rue, A. (1998). Guia de psiquiatria geriátrica. Lisboa: Climepsi.