Idadismo -II

Publicado a 21.04.2013

 

O ageism espelha-se nos mais variados contextos e serviços. Nas plataformas institucionais surge através da linguagem utilizada (sobre-ajustada ou discurso infantilizado) (Bytheway, 2005). Nos cuidados de saúde reflecte-se no facto frequente de se receitar mais medicação, transmitir menos informação sobre o estado clínico e o receituário, e de se desvalorizar determinadas queixas e sintomas nos anciãos (o que não só leva a episódios de negligência mas também a colocar em risco de vida do paciente). Nos contextos de saúde psiquiátricos é frequente que os pacientes mais velhos sejam vistos como tendo menos potencial de mudança e uma maior deterioração cognitiva, pelo que são pouco admitidos em psicoterapia, nem sempre os seus problemas são devidamente reconhecidos ou valorizados, surge uma tendência para sobrestimar o diagnóstico de demência e para não atribuir valor a outros problemas psicológicos, os prognósticos são geralmente avaliados como piores do que em adultos mais jovens (Nelson, 2005; Nussbaum et al., 2005). Em instituições residências/de apoio, além da linguagem, verifica-se uma tendência para a não manutenção das suas competências/“imobilização” – não são estimulados a colaborar em tarefas a que estavam habituados (cozinhar, tratar da higiene da roupa, limpar e arrumar o quarto, etc.), pouco participam dos seus próprios planos de cuidados ou da sua prestação, e muitas vezes pouco são estimulados para além da tv. A nível laboral são preteridos na admissão devido ao estereótipo da improdutividade e pela mesma razão são compulsivamente “jubilados” aos 70 anos independentemente das suas capacidades e da sua própria vontade (Roscigno, Mong, Byron, & Tester, 2007). Nas interacções sociais do quotidiano o ageism manifesta-se através da utilização de humor depreciativo, desrespeito, evitamento social e segregação, práticas e políticas discriminatórias, e da crença de que são um fardo social (Palmore, 2001; Gatz & Pearson, 1988, Butler, 1995).

As consequências do ageism junto das pessoas idosas são inevitáveis: sentimentos de inferioridade, desvalorização perante a sociedade; uma auto-percepção errónea no que respeita às suas competências comunicacionais, cognitivas e ao próprio declínio, decréscimo da auto-estima, um sentimento de que já não conseguem ser mais independentes ou terem um papel activo na sociedade, contribuindo para a assumpção de um papel passivo e dependente, baixa responsividade e motivação, menores comportamentos de coping, aumentando a depressão, o desespero, a ansiedade, os problemas de memória, e piorando o seu estado de saúde no geral (Nelson, 2005; Nussbaum, et al., 2005). Como é visível, estas mesmas consequências tendem a gerar atitudes nas pessoas idosas que vão de encontro aos estereótipos criados, o que torna o ageism num fenómeno de difícil erradicação nas sociedades actuais.

Bibliografia: 

 

Butler, R. (1995). Ageism. In G. Maddox (Ed.). The encyclopedia of aging (2nd ed., pp. 38-39). New York: Springer Publishing Co.

Bytheway, B. (2005). Ageism. In M. Johnson, V. Bengtson, P. Coleman, & T. Kikwood (Eds.). The Cambridge handbook of age and ageing (pp. 338-345). Cambridge: University Press.

Cook, J.M., Gallagher-Thompson, D., & Hepple, J. (2005). Psychotherapy with older adults. In G. Gabbard, J. Beck, & J. Holmes (Eds.). Oxford textbook of psychotherapy (pp. 381-390). New York: Oxford University Press.

Gatz, M., & Pearson, C.G. (1988). Ageism revised and the provision of psychological services. American Psychologist43(3), 184-188.

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McGowan, T. (1996). Ageism and discrimination. In J. Birreu (Ed.). Encyclopedia of gerontology: age, aging and the aged (Vol. I, pp. 71-80). New York: Academic Press.

Nelson, T. (2005). Ageism: prejudice against our feared future self. Journal of Social Issues61(2), 207-221.

Nussbaum, J.F., Pitts, M.J., Huber, F.N., Krieger, J.L.R., & Ohs, J.E. (2005). Ageism and ageist language across the life span: intimate relationships and non-intimate interactions. Journal of Social Issues61(2), 287-305.

Oliveira, B. (2008). Psicologia do envelhecimento e do idoso (3ª ed.). Porto: Livpsic.

Palmore, E. (2001). The ageism survey: First findings. The Gerontologist41(5), pp. 572-575.

Roscigno, V.J., Mong, S., Byron, R., & Tester, G. (2007). Age Discrimination, Social Closure and Employment. Social Forces86(1), 313-334.

Vergueiro, M.E. (2009). O ageism e os maus-tratos contra a pessoa idosa. Coimbra: FPCE-UC. Dissertação de mestrado não publicada.

Viegas, S.M., & Gomes, C.A. (2007). A identidade na velhice. Porto: Ambar.