A arte de estar no presente, ou o cérebro como casa

Publicado a 19.03.2016

Se nos perguntarem como estava a nossa casa hoje, quando dela saímos, será que conseguimos detalhar cada pormenor? O cheiro que percorria as divisões, a luz que incidia nos objectos, as texturas dos tapetes e superfícies, os objetos dispersos entre móveis e arrumações… Será que conseguimos descrever tudo o que os sentidos conseguem captar?

Depende da atenção que prestamos quando estamos em casa.

Há dias em que saímos de casa a correr e nem nos apercebemos onde deixámos as chaves, que compras é preciso fazer, que prateleiras da dispensa estão cheias, o que é preciso arrumar, que jantar deixámos feito. E se encontrarmos alguém na rua que nos pergunte o que vamos jantar temos de fazer um esforço para recordar.
Noutros dias, estamos disponíveis mentalmente e sabemos exactamente que compras é preciso fazer e que prateleiras estão cheias …E se não surgir, assumimos uma postura curiosa e ao chegarmos a casa, procurando bem, encontramos o que outrora parecia vago. Encontramos objectos há muito perdidos, apreciamos as pequenas coisas, o conforto do nosso sofá e a beleza da vista que a janela nos proporciona.

 

Será que com o nosso cérebro é assim?

Se nos perguntarem como estamos hoje, temos também, de recorrer à última vez que estivemos no cérebro, conscientes dos pensamentos sem ver a realidade literalmente através deles, ou conscientes dos nossos estados emocionais sem colorir cada acontecimento com as emoções que nos provoca subjetivamente. E para responder com especificidade à pergunta simples “Como está?”, será que conseguimos descrever tudo o que a perceção consciente consegue captar?

Depende da atenção que prestamos.

O cérebro, como a casa que habitamos, também tem as suas divisões, cheiros, texturas, sabores, sons, cores. O cérebro tem pensamentos que nos agradam e desagradam, emoções básicas (presentes em todos os animais) e emoções mais elaboradas (presentes em alguns mamíferos e humanos) que ajudam a gerir as emoções básicas e nos levam a formas de comportamento articuladas. O cérebro tem memórias bem arrumadinhas como os objectos perdidos em nossa casa, que estão presentes e ocupam um lugar importante, mesmo quando não nos apercebemos que estão lá.

No cérebro, a cada momento, coexistem diferentes lados do “eu”, que criam sensações de ambivalência, contraste ou coerência. Esses “eus” estão continuamente em relação com acontecimentos externos, surgindo em reacção, processos internos complexos marcados pelas nossas necessidades, preferências, limites. E como podemos cuidar da casa, que é o cérebro, para que esteja claro, nutrido e saudável?

Como cada divisão da casa precisa de atenção, também os processos psicológicos precisam de ser observados e visitados. Estar atento, no presente, ao que pensamos, ao que precisamos e não precisamos, ao que sentimos ou fazemos, com uma postura de não julgamento e apenas contemplativa é mais difícil do que possa parecer, é quase uma arte. Muitas vezes encontramos pensamentos ou emoções com as quais é difícil de estar, percebemos que precisamos de respostas que os outros não dão, limites difíceis de assumir e por isso rapidamente nos distraímos. E a distracção tem funções importantes também, regula a intensidade do que encontramos, mas como toda a casa precisa de ser cuidada para ser habitada, também o nosso cérebro precisa de ser visitado para nos dar outro conforto.

Estar presente é uma arte que parece simples mas requer rotina e esforço, tal como cuidar de uma casa. Por isso a meditação mindfulness e a psicoterapia têm ganho adeptos ao longo do tempo. São ambas formas de visitar e gerir de forma clara o que se passa dentro das nossas casas.