Cuidados diários em saúde mental

Publicado a 06.12.2014

A nossa saúde mental é um bem precioso. E, tal como acontece com a nossa saúde física, precisa de cuidados diários para não enfraquecer.

Da mesma forma que há comportamentos que contribuem para promover a nossa saúde física ou colocar a expressão dos genes que trazemos a nosso favor, algumas atitudes ajudam a fortalecer o nosso bem-estar psicológico e ainda permitem prevenir que se instalem sintomas/quadros de doença mental.

Hoje sabemos que a nossa saúde mental varia ao longo do tempo, fragilizando-se perante momentos de maior adversidade. Assim, é essencial ter conhecimentos acerca dos cuidados diários que a literatura científica sobre saúde/doença mental tem sugerido serem úteis e protetores. Seguem-se alguns:

- Refletir periodicamente sobre quais são as áreas da vida que mais valorizamos (o que é mais importante?) e definir objetivos de rotina (dedico tempo àquilo que mais valorizo na minha rotina?) que nos ajudem a encontrar satisfação e significado no quotidiano.

- Estar atento ao presente: focar a atenção no presente é mais difícil e menos frequente do que pode parecer. Porque recorremos a memórias da experiência passada e projeções de eventos futuros para nos regularmos muitas vezes andamos “distraídos” do presente. Quantas vezes estamos “em modo”: “O que é que está a acontecer aqui e agora? O que estou a ver/ouvir/cheirar/sentir?” Parar e observar o presente permite-nos saboreá-lo e participar dele de forma mais auto-regulada.

- Colocar em perspetiva ou reenquadrar: se estivermos atentos, observamos que a nossa perspetiva vai mudando momento a momento. E, nem sempre nos focamos naquela que melhor se ajusta à interpretação do contexto ou na que pode tornar-se mais útil para lidar com este. Alguns estudos sugerem a importância de utilizar o otimismo, a compaixão, o humor e a gratidão a nosso favor.

Naturalmente, o processo de procurar uma perspetiva mais otimista (ex. o que é que posso aprender com esta situação desconfortável?), compassiva (ex. como posso estar próximo dos outros, ajudá-los e contribuir para o seu bem estar?), auto-compassiva (ex. não sou perfeito(a) e tenho o direito de errar), humorada (ex. tirar partido de uma queda em público rindo da mesma) e grata (ex. reconhecer e agradecer uma refeição saborosapodia ser só um almoço de que não me lembro, mas ao estar atenta a este almoço sinto-me grata) deve ser flexível. Cultivar estes processos permite-nos ter um reportório psicológico mais flexível para gerir o bem-estar e lidar com o desconforto. Não se pretende que estes sejam hábitos rígidos que se tornem desadequados ou desajustados (ex. ser otimista e não implementar mudanças quando se chumba várias vezes a uma cadeira; fazer humor magoando outro).

- Construir uma rede de suporte social onde se sinta aceite, amado, integrado: devemos estar atentos aos parceiros que escolhemos e a como estes nos fazem sentir, estabelecendo limites e respeitando as nossas necessidades de relacionamento.

- Praticar exercício físico: há inúmeros estudos que sugerem que o exercício é fundamental para a manutenção da saúde mental e prevenção da doença mental (ex. já experimentei integrar o exercício físico na minha agenda? A caminhada, o ginásio, o futebol, a dança, o yoga?).

- Pedir ajuda a um profissional de saúde mental: quando observamos que os nossos esforços não são suficientes para uma maior qualidade de vida; ou que o nosso humor ou comportamento se altera de forma significativa, trazendo problemas ou sofrimento, pode ser importante consultar um profissional. Tal como recorremos ao médico para avaliar e cuidar da nossa saúde podemos recorrer a um psicólogo para avaliar e ajudar a reestabelecer ou tratar a nossa saúde mental.

Como qualquer indicação de saúde, não basta saber: é preciso querer e fazer um esforço por praticar até ver resultados.

 

Bibliografia: 

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