Esses outros que somos nós

Publicado a 27.07.2016

Ao longo da nossa vida, vamo-nos cruzando com a seguinte noção: os outros somos nós.

Pertencemos à mesma espécie, a espécie humana, apresentamos um código genético que não escolhemos, somos influenciados por um contexto histórico, político, ambiental, social, familiar que apesar de não escolhido, vai modular a expressão dos nossos genes e grande parte do modo como a nossa identidade se define.

Isto é o que caracteriza a espécie humana, os outros, nós.

Nós que fazemos parte de um todo que é interdependente. Nós que temos impacto nos outros, em tudo, no que é dito e no que ficou por dizer, no que é feito e no que não chegou a ser feito, até naquilo que é ou não sentido. Nós, que sentimos o impacto dos outros.

Nós que quando vemos uma criança feliz ou triste temos ressonância emocional do seu estado, porque a evolução programou os “neurónios espelho”, para nos informar acerca do que o “outro” sente, como se a reacção emocional fizesse espelho, aqui.  Em “nós”.

Nós que influenciamos os outros, que nos influenciam, numa dança em que nenhuma melodia se forma sem a presença pontual de todos os instrumentos.

Os outros, como nós, gostam de saber o que pensamos, que expectativas temos, o que queremos, para orientarem o seu comportamento e ajustarem as suas próprias expectativas, necessidades e limites.

Nós e os outros evoluímos através de processos de luta e de cooperação entre espécies. E na socialização, ainda o fazemos, competimos (e.g. na escola, no trabalho, pela imagem ideal) e apoiamo-nos (e.g. afectivamente, instrumentalmente), sem mesmo nos darmos conta.

Esses outros que somos nós partilham a mesma condição humana, sentem emoções como nós, necessidades básicas e complexas como nós, fazem coisas de que se envergonham como nós, falham como nós, desiludem como nós, surpreendem como nós, mudam como nós, têm capacidade de lutar como nós, têm recursos por desenvolver, como nós, precisam de apoio, quando ninguém se coloca no lugar “dos outros”, como nós.

E o que dos outros mais ressoa em nós (e.g. sejam críticas que nos ferem, elogios que nos engrandecem, cumplicidades que nos enternecem) é, geralmente, algo que já tinha lugar dentro de nós.

 

Porque afinal de contas, e de diferentes formas…os outros somos nós.

Bibliografia: 

Gilbert, P. (2009). The nature and basis for compassion focused therapy. Hellenic Journal of Psychology, 6, 273-291.

Neff, K. (2009). The role of self – compassion in development: a healthier way to relate to oneself. Human Development, 52, 211-214.