Doença oncológica e conjugalidade

Publicado a 25.03.2013

A investigação sugere que casais expostos ao cancro de mama relatam alterações no funcionamento marital em diferentes níveis, como na comunicação, na sexualidade, na identidade de papéis e no ajustamento psicológico do casal. Segundo alguns autores (Northouse, Templin, Mood & Oberst, 1998), estas alterações surgem de forma semelhante em ambos os membros do casal. A presença de menores dificuldades no relacionamento, ou a boa expressão de sentimentos e coesão familiar,  surgem como determinantes na superação desta crise (Friedman, Baer, Nelson, Lane, Smith & Dworkin, 1988). A intimidade é um dos aspetos relacionais geralmente afetado, pois os tratamentos acarretam elevado risco de alterações na saúde sexual devido a desconforto emocional, físico e relacional (Andersen & Jochimsen, 1985). Vários estudos sugerem que o suporte do parceiro pode ser particularmente importante no ajustamento psicológico e qualidade de vida da doente (Pistrang & Barker, 1995). Apesar das diversas dificuldades com que estas mulheres se deparam, muitas conseguem encontrar satisfação nas suas vidas e relações (Shover, Fife, Gershenson, 1989).

Em Portugal os estudos que se debruçam sobre cancro e relação conjugal são escassos. Neste estudo apoiámo-nos no conceito multidimensional de ajustamento conjugal ou marital apresentado por Spanier (1976). Para este autor, o ajustamento conjugal é melhor descrito através de quatro fatores principais: o grau de satisfação, coesão, consenso e expressão de afetos. Neste sentido, o nosso principal objetivo foi a avaliação da influência do cancro ginecológico ou de mama ao nível do ajustamento conjugal e com base na perceção retrospetiva da mulher. Assim pedimos a 17 mulheres que se encontravam em período de internamento pós-cirurgia, que preenchessem uma escala de ajustamento relacional (RDAS) (Busby, Christensen, Crane & Larson, 1995) duas vezes de forma seguida, focando-se primeiro no período anterior ao conhecimento do diagnóstico e depois  no período entre o conhecimento do diagnóstico e o pós-cirurgia, sendo esse o momento atual. Logo após, realizou-se uma entrevista visando explorar as diferenças nas respostas à RDAS nos dois momentos. Nos resultados  as pontuações obtidas nos dois momentos surgem associadas positivamente, sugerindo um aumento no nível de ajustamento na fase posterior ao diagnóstico. Um subgrupo de participantes relataram a inexistência de alterações na vida conjugal depois do conhecimento do diagnóstico, enquanto outras referiram mudanças positivas, reafirmando assim  a importância do apoio do companheiro no processo de doença. O futuro da relação não parecia preocupar as mulheres no momento da realização da entrevista.

Assim, apesar das alterações negativas que a vivência do cancro ginecológico ou de mama pode induzir no ajustamento conjugal, este estudo sugeriu que experiência oncológica pode também promover alterações positivas na vida do casal, contribuindo para um maior  ajustamento conjugal. 

Bibliografia: 

Alves, M. (2008). Influência dos cancros ginecológicos e de mama no ajustamento conjugal. Dissertação de mestrado em psicologia. Lisboa: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.