Trauma no Construtivismo Narrativo

Publicado a 21.06.2016

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Como psicóloga/psicoterapeuta, tenho refletido na frequência com que “o trauma tem visitado o meu consultório”. Atrevia-me quase a afirmar que o trauma (simples ou complexo) está presente numa grande parte dos casos que acolho diariamente, mesmo não sendo essa a queixa principal apresentada pelos pacientes. Deste modo, tenho sentido necessidade de explorar mais esta temática do ponto vista teórico e principalmente de modelos de intervenção. Hoje começo por levantar aqui uma pontinha do véu desta minha reflexão, que tem tanto de continuada como de complexa.

Estudos epidemiológicos indicam que ¾ dos indivíduos vão experenciar eventos traumáticos durante a sua vida, contudo apenas aproximadamente 10% a 25% dos mesmos irão desenvolver Perturbação de Stress Pós-traumático (PTSD). Neste sentido, as características do acontecimento traumático, o significado que a pessoa atribui ao evento e a natureza da resposta, são consideradas variáveis com uma forte influência no desenvolvimento de trauma, bem como a presença de comorbilidades como ansiedade, depressão ou ideação suicida.

Geralmente as pessoas com maior dificuldade em adaptar-se à situação traumática apresentam hipersensibilidade, agitação psíquica, pensamentos intrusivos, relacionados com a perda e a morte, vingança e a perceção de perigo eminente. Continuam também sem encontrar uma explicação para o sucedido (porquê?, e se?) e a manifestar pouca esperança em relação à mudança e ao futuro.

A literatura mostra que a psicoterapia pode ajudar os pacientes com trauma a alterar as suas narrativas de vida, auxiliando-os na organização do seu pensamento. Assim, o psicoterapeuta apoiará o paciente na renarração da sua história de vida, explorando as construções críticas que o mesmo tem sobre a experiência traumática. À medida que o paciente vai dando voz às narrativas internas, experienciando-se a nível emocional, vai também criando novas percepções sobre a experiência e novas formas de lidar com os estímulos indutores de stress, fomentando uma maior autorregulação interna.

Espera-se que o paciente a dada altura consiga integrar a história traumática na sua “linha da vida”, passando da perceção de vítima à de sobrevivente, através da tal procura de significados que atribuem sentido à vida. Este processo de reestruturação pode ser tão revelador e estruturante que, por vezes após o processo psicoterapêutico, o sofrimento do paciente é canalizado para ajudar os outros, conseguindo dessa forma importar ainda mais sentido para a sua história.

 

 

Bibliografia: 

Meichenbaum, D. (2004). What “expert” therapists do: a constructive narrative perspective. International Journal of Existential Psychology & Psychotherapy, Vol. 1, Nº. 1, pp. 50-55.