Auto-compaixão na procrastinação

Publicado a 15.05.2016

A procrastinação é uma tendência para o adiamento de uma decisão ou uma tarefa a cumprir: pode acontecer num ambiente de trabalho ou académico (estudar para um exame, elaborar uma tese, preparar uma apresentação), em meios sociais e familiares (comprar o presente para o parceiro, visitar a família, tomar café com um amigo), podem ser tarefas e obrigações do dia-a-dia (pagar as contas, tratar do Irs), de saúde (marcar uma consulta, iniciar uma dieta, deixar de fumar, fazer desporto regularmente) ou até uma actividade de lazer (fazer voluntariado, manter um hobby). 

Este fenómeno tem componentes afectivas, cognitivas e comportamentais e está frequentemente associado ao perfeccionismo (ex.“sou incapaz de iniciar o projecto até não ter definido perfeitamente o plano de trabalho”), insatisfação, sentimentos de vergonha e culpa pela incapacidade de finalizar uma tarefa, para além do medo em falhar determinados objectivos, podendo desencadear desgaste emocional, ansiedade e depressão.

Adiar tarefas para um dia futuro, pode ser considerada uma falha na auto-regulação emocional e cognitiva que resulta desadaptativa e tem um impacto negativo no bem-estar, gerando stress e juízos negativos que os procrastinadores se auto-infligem para lidar com as dificuldades em respeitar as data de entrega das tarefas, acabando paradoxalmente prisioneiros de um ciclo de procrastinação que pode tornar-se crónico.

A auto-compaixão - como forma de compreensão e auto-aceitação - resulta ser uma estratégia eficaz para lidar com a procrastinação, possuindo uma qualidade adaptativa que promove a auto-regulação afectiva e reduz o stress associado à auto-critica, servindo como “almofada” na gestão das reações negativas a certos eventos. Para promover esta característica enquanto estamos a vivenciar momentos difíceis, é preferível sermos gentis e bondosos connosco mesmos e não auto-críticos; reconhecermos a nossa imperfeição e o sofrimento como uma experiência humana comum em vez de isolarmo-nos; tomar uma atitude acrítica perante emoções  negativas em vez de nos identificarmos com elas.

A auto-compaixão está relacionada com a diminuição da ansiedade e da depressão, com o consequente aumento do bem-estar; tem um papel adaptativo e saudável na auto-regulação reduzindo os estados emocionais negativos e a auto-culpabilização, e está associada ao uso de estratégias de coping na redução do stress.

Cultivar a auto-compaixão pode ajudar-nos a reconhecer a nossa responsabilidade nos eventos negativos, evitando que fiquemos presos em pensamentos negativos e ruminantes que possam vir a promover futuras procrastinações, e fazendo com que nos sintamos mais activos e presentes no papel do auto-cuidado.

Bibliografia: 

Bilge Uzun Ozer, Jean O'Callaghan, Anna Bokszczanin, Elfriede Ederer & Cecilia Essau (2014) Dynamic interplay of depression, perfectionism and self-regulation on procrastination, British Journal of Guidance & Counselling, 42:3, 309-319, DOI10.1080/03069885.2014.

 

Katrin B. Klingsieck (2012) Procrastination in Different Life-Domains: Is Procrastination Domain Specific? Current Psychology, Volume 32, Issue 2, pp 175-185, DOI 10.1007/s12144-013-9171-8

 

Fuschia M. Sirois (2014) Procrastination and Stress: Exploring the Role of Self-compassion, Self and Identity, 13:2, 128-145, DOI: 10.1080/15298868.2013.763404