Perda e luto

Publicado a 15.03.2013

A morte de um ente querido é uma experiencia transversal à vida de todo o ser humano: a perda de familiares e amigos representa um desafio existencial que gera reações emocionais de diferentes intensidades e levanta questões existenciais profundas.

Para que a pessoa em luto consiga retomar a sua funcionalidade no seu quotidiano e se fortaleça como indivíduo precisa, antes de mais, de refletir sobre as suas necessidades emocionais e sobre as suas crenças mais profundas. Uma destas necessidades é a de manter uma certa coerência entre os diferentes acontecimentos da sua vida, ou seja, a necessidade de preservar intacto o fio condutor da existência. Ora, a experiência da morte de um ente querido vem precisamente redefinir, cortar o fio condutor da existência criando uma cisão dolorosa entre os acontecimentos anteriores à perda da pessoa querida e a realidade do presente sem essa pessoa.

A morte de uma pessoa amada pode, também, fazer vacilar a validade das crenças mais profundas. O encontro com o luto pode desencadear pensamentos e emoções referentes aos acontecimentos passados e levantar questões sobre o que vem a seguir à morte levando a pessoa a assumir uma postura de busca de significado e de explicação para a experiência do morrer (através por exemplo, da atribuição de responsabilidade, da explicação religiosa, da comparação com perdas anteriores).

De um modo geral, tenta-se resolver a incongruência entre o antes e o depois da morte da pessoa querida assimilando a experiência mediante o refúgio nas crenças e narrativas anteriores à morte, na tentativa de manter a consistência identitária anterior à vivência da perda. Pode-se também fugir para o futuro, saltar para o próximo capítulo da existência, reduzindo ou invalidando a experiência de dor sentida no presente, postura que só aparentemente distancia da perda.

Contudo, perante a experiência da perda existe uma alternativa ao refúgio no passado ou à fuga para o futuro: habitar no momento presente, habitar aquela dor que dói. Ou seja, aceitar o sofrimento que vem da perda e deixar que as emoções mais profundas possam emergir. Só assim se estará numa posição favorável para dar novo significado à morte do ente querido e regressar à própria existência com esta perda interiorizada.

Quando se decide habitar a dor da perda é muito importante poder contar com o apoio, a validação e a partilha das emoções (por exemplo, a tristeza, a zanga, a vergonha ou o medo) com pessoas significativas (por exemplo, um psicoterapeuta) ou em grupos de autoajuda com pessoas que passaram por experiência similar.

Este apoio, validação e partilha permitem uma nova configuração da experiência do luto: a pessoa reorganiza-se e aprofunda as suas crenças e narrativas, busca validação para assumir nova identidade e um novo «lugar» na rede social; no fundo, lida de maneira construtiva com a realidade da perda. E a descoberta de nova identidade, a experienciação de novos papéis sociais tendem a favorecer o crescimento pessoal, incrementam a autonomia e restabelecem a coerência entre a perda e as novas significações da realidade após o luto.

Bibliografia: 

Robert A. Neimeyer, Laurie A. Burke, Michael M. Mackay & Jessica G. van Dyke Stringer (2010). «Grief therapy and the reconstruction of meaning: from principles to practice», In Journal of Contemporary Psychotherapy, 40, 2, págs. 73-83.