Procurar ajuda

Publicado a 25.03.2013

As psicoterapias contemporâneas pós-modernas vieram desconstruir a ideia de que existe um único plano externo e imutável a que o indivíduo responde e que se chama realidade. Não porque ela não existe mas porque ela é múltipla e idiossincrática. Porque a realidade mora em cada um de nós: construímo-la, desconstruímo-la e reconstruímo-la ao sabor das nossas experiências, dos encontros, desencontros e desafios presentes em cada etapa da nossa vida. Criamos laços, damos sentido e significado ao caminho que percorremos, com base nos caminhos já percorridos e na expectativa daqueles por percorrer. Assim é a nossa realidade, uma impressão digital única, dinâmica, e em progresso constante.

Quando nesta nossa realidade algo perde o sentido e se torna tão difícil de ultrapassar que as nossas ferramentas psicológicas se revelam desadequadas ou insuficientes para lidar com a situação, poderemos pensar em pedir ajuda. Poderemos estar a necessitar de cuidados.

Desta forma, o trabalho psicoterapêutico consiste numa viagem em relação, numa viagem a dois,  durante a qual a pessoa tem a oportunidade de partilhar “paisagens” interiores, e nelas intervir ativamente de forma a libertar-se de algum sofrimento, de impasses  ou mal-estar. O espaço psicoterapêutico torna-se o palco de uma atitude fundamental que é a dedicação ao cuidado de si. Um lugar onde a pessoa permite cuidar-se e ser cuidada.

A tarefa de cuidar (*) resulta comum a tantos outros contextos da nossa vida, quer profissionais (educador, enfermeiro, médico, fisioterapeuta) quer  familiares ( enquanto mãe, pai, irmão, avô). Tal é a importância que desempenha nas nossas vidas que certos autores defendem que a própria essência do ser humano reside no cuidado, enquanto modo através do qual a pessoa sai de si, se descentra, e se centra no outro com desvelo e solicitude. Neste sentido, “a identidade própria do humano é constituída na coexistência e na inter-relação. Na base desta perceção está o cuidado, compreendido como dedicação e inquietação pelo outro” (Silva et al, 2009). Aceitamos ser cuidados porque cuidamos,  e somos cuidadores porque também  fomos cuidados.

Em todo o caso, quando pedimos ajuda esperamos do outro um cuidado que se traduza numa atitude de bom acolhimento, reconhecimento e validação, por um lado; mas também numa presença reservada, de disponibilidade sem intromissões, de tempo e de espaço. Esperamos amparo e contenção sedimentados numa relação segura que potencie mudança e crescimento.

Podemos então concluir que alguém que pede ajuda psicoterapêutica, porque algo suficientemente importante na sua vida se tornou ameaçador do seu bem-estar e do seu desenvolvimento, deve esperar que o psicoterapeuta a respeite, ampare e contenha? E que a ajude a ressignificar o seu sentido de identidade, e lhe devolva a sua capacidade de cuidar de si? Sem dúvida. No contexto de uma relação segura, numa viagem percorrida a dois, onde a pessoa é a construtora do seu caminho e a melhor cuidadora de si própria.

 

(*) Na sua raiz etimológica, “cuidar” é resultante da mutação da palavra latina “cura” que nos remete para o seu sentido primitivo de “cuidado”, “atenção”, “diligência” ou “zelo”. “Curare” é pois “cuidar de”, “olhar por”, “dar atenção a”, “tratar”.