DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL: UMA TAREFA PARA A VIDA

Publicado a 30.09.2014

Quando somos adultos, por vezes, não temos noção de que há coisas em nós que não fizeram sempre parte de nós, mas foram adquiridas e tiveram um dia a sua fase de aprendizagem, treino e consolidação. Um exemplo importante disso é a capacidade de reconhecer emoções. Essa capacidade é fortemente promovida pelos nossos progenitores na nossa infância quando reconhecem, por palavras e por atitudes, as emoções que nós próprios estamos a sentir mas que nem a nossa mente nem o nosso vocabulário conseguem definir bem. Uma coisa é sentir emoções; outra é saber que as sentimos e a propósito de quê, como evoluem, o que podemos fazer para as transformar, e o que as caracteriza e diferencia umas das outras.

Ao darem-nos um reportório emocional (não só verbal mas também em expressão corporal), os nossos pais enriquecem a nossa inteligência emocional. Gradualmente e sem esforço, vamos ficando com uma atenção mais aprimorada para essa parte do que acontece connosco e com os outros. Isso permite-nos ir experimentando estratégias para gerir, ou regular, as nossas emoções. Permite, também, que tenhamos uma boa noção da realidade emocional dos outros, que muitas vezes é subtil, e que sejamos capazes de nos sintonizarmos empaticamente com o que eles estão a sentir.

Na origem (ou em consequência) da maior parte das perturbações psicológicas existem dificuldades no reconhecimento, diferenciação, expressão e gestão das nossas emoções. Estas dificuldades podem ter diversas consequências. Por exemplo, talvez seja difícil tranquilizarmo-nos depois de um acontecimento stressante, ou entrarmos num estado emocional positivo, sem a intervenção de alguém. Se estivermos assim dependentes de uma regulação externa das nossas emoções, também pode acontecer que recorramos a fontes de prazer e conforto que se tornam reguladores emocionais. Isto pode gerar uma vulnerabilidade ao efeito de substâncias, que é, nesses casos, uma forma de compensar as dificuldades dos nossos próprios recursos emocionais, que por alguma razão ficaram subdesenvolvidos.

Outras vezes podemos ficar muito centrados num leque reduzido de emoções, como a revolta ou a nostalgia, tomando essa experiência parcial como a nossa principal perspectiva, ignorando as perspectivas dos outros e sem explorar outras perspectivas nossas. Como resultado, ficamos com expectativas rígidas e pouco criativas, ou com uma visão dualista do tipo «tudo ou nada» em relação a nós ou aos outros - ou o outro é fantástico e desejável, ou é desprezível e hostil; ou «eu sou perfeito», ou «eu sou um desastre»; etc. -, criando-se assim ciclos viciosos e padrões disfuncionais que impedem a fluidez, a criatividade e a plenitude nas nossas relações e na vida em geral.

O nosso desenvolvimento emocional pode e deve ser retomado em qualquer altura das nossas vidas. Ao enriquecermos a nossa inteligência emocional estaremos a ampliar as possibilidades de realização nas nossas relações, a diversificar as experiências que sentimos e a criatividade com que as vivemos. Estaremos a desenvolver o potencial extraordinário da sensibilidade com que fomos dotados como seres humanos.

Bibliografia: 

General Principles for Treating Personality Disorders with a Prominent Inhibitedness Trait: Towards an Operationalizing Integrated Technique, Giancarlo Dimaggio, MD, Giampaolo Salvatore, MD, Donatella Fiore, MD, Antonino Carcione, MD, Giuseppe Nicoló, MD, and Antonio Semerari, MD. – Journal of Personality Disorders, 26(1), 63-83, 2012