A Solidão dentro de nós

Publicado a 03.06.2013

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Provavelmente já todos temos uma noção de que a ligação aos outros e a solidão são questões de grande importância e que nos acompanham por toda a vida. Mas se dermos um passo mais nessa reflexão, encontramos um novo e interessante conceito: a solidão dentro de nós próprios.

Imaginemos uma sala fictícia com algumas pessoas, apenas com uma particularidade: cada uma dessas pessoas seria uma parte de nós. Na realidade, todos temos “dentro” da pessoa que somos diferentes aspectos de nós próprios. Uma parte mais activa e enérgica, outra mais contemplativa e passiva… ou um “eu” mais crítico e outro mais hedonista… etc.

Nesta sala fictícia, como se relacionariam entre si estas diferentes partes de nós mesmos? É fácil perceber que, de pessoa para pessoa, existirá uma diferente relação entre as suas diferentes partes. Em algumas pessoas, a “sala” estaria numa convivência animada, estas “partes” conhecer-se-íam, aceitar-se-íam mutuamente, teriam sentimentos positivos umas pelas outras, exprimir-se-íam livremente. Noutras pessoas, talvez estas partes não se dessem tão bem. Talvez uma parte orgulhosa de nós quisesse fingir que não existe uma parte frágil em nós; ou uma parte assustada preferisse ignorar uma parte revoltada. Em muitos de nós existem partes que criticam abertamente outras.

Algumas começam a sentir que não podem existir, e acabam por se suprimir, aparentando realmente não existir. Aparece culpa, vergonha, medo, angústia, associados a dimensões importantes de nós, que ficam presas e remetidas ao silêncio. Tornamo-nos sozinhos dentro de nós próprios, sem sequer termos consciência de que existem determinadas realidades dentro de nós, porque deixamos de as ouvir.

Há partes de nós que precisam urgentemente de ter voz, e se não tivermos desenvolvido uma saudável convivência entre esses diferentes aspectos de nós – reconhecendo-os, acolhendo os mais frágeis, conciliando os mais violentos com os mais pacíficos, etc… - acabamos por ignorá-los ou suprimi-los. Mas não é por isso que eles deixam de existir. Suprimi-los provoca problemas emocionais e relacionais, bloqueia-nos, torna-nos menos flexíveis, menos resilientes, com menos capacidade para tirar prazer da vida.

Isto é mais evidente em pessoas que passaram por experiências traumáticas. Mas por  “trauma” não se entende apenas acontecimentos intensos como acidentes, abusos, ou outros. Todos passamos por pequenos traumas ao sermos remetidos para a vergonha, o medo, a falta de liberdade, nos nossos contextos relacionais. Esses pequenos traumas ensinam-nos a não prestar atenção àquilo que sentimos, porque “não é suposto”, ou porque simplesmente não sabemos que podemos senti-lo. Há uma liberdade, uma força, uma integridade do “eu”, que precisamos de recuperar.

Como? Escutando as diferentes partes de nós, ajudando-as a comunicar, resolvendo aparentes paradoxos e contradições, identificando a maneira como nós próprios não permitimos determinadas coisas em nós. Aprendendo a aceitar as nossas fragilidades e a valorizar as nossas qualidades. Permitindo-nos sermos pessoas completas e livres, e a dar-nos a nós próprios aquilo que talvez não tenhamos podido receber na perfeição: compaixão, carinho, validação, apoio, segurança.

Bibliografia: 

Intra-relational AEDP:  An Extended Paradigm for Ego Strengthening and Emotional Processing in Clients with Complex Trauma and Disorders of the Self,Jerry Lamagna & Kari Gleiser