Trauma e resiliência

Publicado a 11.03.2013

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“A patologia dá-se quando algo que aconteceu fora, passa a acontecer dentro do indivíduo e passa a ser o indivíduo a fonte da sua própria tortura, abuso, demissão e negligência.” – Diana Fosha.

A maior parte de nós passa pelo dia-a-dia da vida sem se aperceber de que traz pequenas ou grandes feridas afectivas que jazem adormecidas dentro de si e que têm uma grande influência na maneira como nos relacionamos, sentimos e vivemos. Como disse Hemingway, “o mundo quebra todos, depois disso, alguns são fortes nos sítios partidos”. Isto quer dizer que é, em grande parte, pela maneira como lidamos com  a dor, que organizamos a nossa maneira de estar na vida. E também que é a partir dessas situações que aprendemos, ou não, a ser resilientes.

A impotência que sentimos perante experiências infantis de perda, em que não recebemos resposta às nossas necessidades emocionais primárias com os nossos entes queridos, contribui muito para a nossa maneira própria de agir, sentir, e relacionar. Estas situações põem a nú a fragilidade e a vulnerabilidade a que estamos sujeitos quando nos ligamos, desejamos, e envolvemos com alguém. Em consequência disso, e compreensivelmente, construímos estratégias inconscientes com o objectivo de nos protegermos do sofrimento que sentimos nessas ocasiões. São as chamadas “defesas”, e actuam de variadas maneiras. Podem, por exemplo, diminuir a capacidade de sentirmos, para evitar a dor associada, ou podem fazer com que prefiramos estar sozinhos.

As defesas servem para nos proteger, não é “mau” termos defesas, nem somos “culpados” por isso, pelo contrário: são um reflexo dos incríveis recursos inatos de que a Natureza nos dotou para sermos bem sucedidos na vida. No entanto, embora eficazes nos seus objectivos, podem ter o efeito colateral de prejudicar a fluidez emocional necessária para uma vivência feliz.

Segundo Diana Fosha, as duas coisas mais importantes no que diz respeito a essa vivência feliz, são as emoções e a vinculação (ligação) aos outros. É precisamente nessas duas dimensões que temos tendência a ficar prejudicados pelos “traumas” da vida: passamos a sentir menos e a ligarmo-nos menos aos outros.

Uma das consequências das experiências de dor, é perdermos a capacidade de receber afecto – aceitá-lo, sentir que o merecemos, sermos capazes de o saborear e inclusivamente dá-lo a nós próprios. O apoio do terapeuta, ao validar os afectos positivos que a pessoa se permite a si própria, funciona como uma relação afectiva nova, diferente daquelas a que estávamos habituados, e que prova que as expectativas negativas, inconscientes, que tínhamos nas relações, não se confirmam. O amor, por nós e pelos outros, e dos outros por nós, existe e é possível vivê-lo com outras pessoas.

A vulnerabilidade, a confiança e a entrega à experiência, três dimensões que temos tendência a bloquear em resposta à dor, são as mesmas dimensões que se promovem no seio de uma psicoterapia: ao confiar num terapeuta, ao aceder à sua própria vulnerabilidade, e ao permitir-se explorar as suas emoções, a pessoa encontra aí uma grande oportunidade de crescimento e transformação, com a vantagem da segurança fornecida pela relação terapêutica. Sendo o núcleo da origem do trauma a sensação de impotência perante uma experiência invasiva, indesejada, e sem controlo, na terapia experimenta-se o contrário. Sentem-se novas emoções, com novas conotações, e abrem-se novas possibilidades de relação. Liberta-se a criança magoada que estava presa dentro de nós, dando lugar a um adulto livre, autónomo, amante, e feliz.

 

 

Bibliografia: 

Trauma Reveals the Roots of Resilience, Diana Fosha, Ph.D. - Constructivism in the Human Sciences, 6 (1 & 2), 7-15 (http://www.aedpinstitute.org/images/pdf/trauma_reveals_roots.pdf)