Lesão cerebral adquirida

Publicado a 28.02.2013

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É, porventura, após o acometimento súbito de uma patologia neurológica que a frase "não vemos as coisas como são, mas como somos" assume, numa perspectiva construtivista, um evidente e dramático sentido.

A lesão cerebral adquirida (LCA), enquanto entidade clínica, define-se como uma lesão não congénita ou degenerativa com impacto e consequências imediatas que dependem da sua natureza, gravidade e localização, por um lado, mas também das características pessoais daquele que a sofre. Os exemplos mais comuns são o acidente vascular cerebral e o traumatismo crânio-encefálico, mas também entram dentro desta categoria danos resultantes da privação prolongada de oxigénio, da ingestão ou inalação de substâncias tóxicas, e do efeito compressivo que o crescimento de tumores acaba por exercer nas estruturas que os rodeiam.  

Se, num primeiro momento, toda a intervenção médica e as preocupações do doente, familiares e amigos se focam em garantir a sobrevivência e a estabilização do quadro clínico, ultrapassada esta fase crítica, sucedem-se inúmeras dúvidas e interrogações sobre a possibilidade de recuperação das alterações físicas, comportamentais, cognitivas ou emocionais que, então, se tornam evidentes e desconcertantes. É importante saber enquadrar tais mudanças, gerir o stress que daí resulta e adequar respostas às limitações que elas impõem.

É essencial saber, por exemplo, que as dificuldades de memória tanto podem dever-se a uma diminuição da competência em recuperar aquilo que foi efetivamente aprendido como também a uma autêntica incapacidade de registar aquilo que sucedeu. Caso em que insistir na sua recordação não só é inútil como também pode ser fonte de cansaço e frustração. Por outro lado, perturbações da atenção são suscetíveis de condicionar a capacidade para atender a duas pessoas em simultâneo ou ouvir música, ainda que relaxante, enquanto se realiza outras tarefas. Para além das alterações da linguagem, também podem emergir dificuldades em regular e avaliar o impacto do que é dito ou feito. Desinibição, comportamentos inadequados, irritabilidade, alterações súbitas do humor, muitas vezes profundamente contrastantes com a personalidade prévia, serão eventualmente os aspetos mais difíceis de compreender e aceitar.

Interessa também salientar que a perspetiva segundo a qual o prognóstico era ditado principalmente em função do dano neurológico subjacente tem vindo a ser reformulada por modelos biopsicossociais que, fundamentados num mais profundo conhecimento da estrutura e neuroplasticidade cerebral, contemplam a importância dos mecanismos psicológicos e de variáveis ambientais e relacionais no processo de recuperação.

Neste contexto, inúmeras propostas de compreensão e intervenção têm sido oferecidas. Designam-se como compensatórias as estratégias ambientais, cognitivas ou comportamentais que visam minimizar o impacto das dificuldades, e reabilitativas aquelas cuja intenção é reconquistar a funcionalidade perdida.

Outra área emergente, e que poderá determinar a adesão e eficácia de todas as outras, é aquela que se debruça sobre a experiência emocional subjetiva que acompanha os desafios que a lesão cerebral adquirida coloca. A psicoterapia construtivista é uma abordagem centrada na pessoa, não interpretativa e respeitante do caracter único dos dilemas vividos; por isso, se norteada por um pertinente conhecimento de como as alterações neuropsicológicas podem condicionar todo o processo, está numa posição privilegiada para promover a coerência entre as dificuldades sentidas e a identidade narrativa.